Há um tempo atrás, deparei-me com um ensaio bastante interessante entitulado “Religon: Bound to Believe?” de Pascal Boyer, publicado na prestigiada revista científica Nature (vol. 455, de 23/10/2008), cujo texto integral em inglês pode ser encontrado aqui (PDF).
Resolvi então fazer uma tradução livre, para compartilhar o texto em português. (Caso alguém encontre algum erro de tradução, por favor me avise, para que eu atualize o texto).
Em razão de seu considerável tamanho, dividirei o texto traduzido em três partes (posts), sendo a primeira publicada hoje e as demais na quinta-feira (parte 2) e no domingo (parte 3).
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Religião: obrigado a acreditar?
Pascal Boyer explica que o ateísmo será sempre mais difícil de convencer que a religião, devido a uma enorme quantidade de traços cognitivos que nos predispõe à crença.
A religião é um produto da nossa evolução? A própria questão faz com que muitos, religiosos ou não, tenham receio por diferentes motivos. Algumas pessoas de fé temem que um entendimento dos processos subjacentes à crença poderia enfraquecê-la. Outros se preocupam com o fato de que aquilo que é dito como parte de nossa herança evolutiva possa ser interpretado como algo bom, verdadeiro, necessário ou inevitável. Outros ainda, incluindo muitos cientistas, simplesmente recusam completamente essa questão e vêem a religião como um absurdo infantil e perigoso.
Tais respostas tornam mais difícil estabelecer por que e como o pensamento religioso é tão pervasivo nas sociedades humanas – um entendimento que é especialmente relevante no atual período de fundamentalismos religiosos. Ao perguntar se a religião é uma das muitas consequências de termos o tipo de cérebro que temos, podemos lançar luz sobre que tipo de religião “vem naturalmente” à mente humana. Podemos sondar os pressupostos básicos nos quais as religiões são baseadas, por mais distintos que sejam, e examinar a relação entre religião e conflitos étnicos. Finalmente, podemos arriscar um palpite de que maneira as perspectivas são realistas para o ateísmo.
Nos últimos dez anos, o estudo evolutivo e cognitivo da religião começou a amadurecer. Ele não tenta identificar o gene ou os genes para o pensamento religioso. Também não se trata simplesmente de inventar cenários evolutivos que poderiam ter levado a religião a ser como a conhecemos. Esse estudo vai muito além. Propõe novas hipóteses e previsões testáveis. Pergunta o que na constituição humana faz com que a religião seja possível e bem sucedida. O pensamento religioso e o comportamento podem ser considerados parte das capacidades humanas naturais, assim como a música, os sistemas políticos, as relações familiares ou as coligações étnicas. Descobertas da psicologia cognitiva, da neurociência, da antropologia cultural e da arqueologia prometem mudar nossa visão sobre a religião.
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Leia também a parte 2 (publicada em 24/02)
Leia também a parte 3 (publicada em 27/02)
Tags:Ateísmo, Cognição, Crença, Espiritualidade, Religião
Uma resposta para “Religião: obrigado a acreditar? – parte 1”