Caso ainda não tenha lido, leia antes a parte 1 desse texto.
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Baseado em pressupostos
Uma descoberta importante é que as pessoas são conscientes somente de algumas de suas ideias religiosas. É fato que elas podem descrever suas crenças, como a de que existe um Deus onipotente que criou o mundo, ou de que há espíritos escondidos na floresta. Mas a psicologia cognitiva mostra que as crenças explicitamente acessíveis desse tipo são sempre acompanhadas por um conjunto de pressupostos tácitos que geralmente não estão disponíveis à inspeção consciente.
Por exemplo, experiências mostram que a maioria das pessoas apresentam expectativas altamente antropomórficas sobre os deuses, independente de suas crenças explícitas. Quando se conta uma história em que um deus atende a vários problemas de uma só vez, essas pessoas consideram a situação bastante plausível, pois os deuses são geralmente descritos como tendo poderes cognitivos ilimitados. Relembrando a história posteriormente, a maioria dessas pessoas diz que o deus atendeu a uma situação antes de voltar suas atenções para a próxima. As pessoas também implicitamente esperam que a mente de seu deus trabalhe de forma muito semelhante à mente humana, apresentando o mesmo processo de percepção, memória, raciocínio e motivação. Tais expectativas não são conscientes, e frequentemente estão em desacordo com suas crenças explícitas.
A pesquisa mostrou que, diferentemente de crenças conscientes, que diferem muito de uma tradição para outra, os pressupostos tácitos são extremamente semelhantes nas diferentes culturas e religiões. Essas semelhanças podem resultar das peculiaridades da memória humana. Os experimentos sugerem que as pessoas se lembram melhor de histórias que incluem uma combinação de proezas físicas fantásticas (nas quais os personagens atravessam paredes ou desaparecem instantaneamente) e características psicológicas humanas plausíveis (percepção, pensamentos, intenções). Talvez o sucesso cultural dos deuses e espíritos decorre deste viés de memória.
Os seres humanos, mesmo em tenra idade, também tendem a acolher relações sociais com estes e outros agentes não físicos. Ao contrário de outros animais sociais, os seres humanos são muito bons em estabelecer e manter relações com agentes além de sua presença física, hierarquias sociais e coligações, como por exemplo, membros temporariamente ausentes. Isto vai ainda mais longe. Desde a infância, os seres humanos constituem relações sociais duradouras, estáveis e importantes com personagens fictícios, amigos imaginários, parentes falecidos, heróis invisíveis e companheiros de fantasias. De fato, a extraordinária capacidade social dos seres humanos, em comparação a outros primatas, pode ser aperfeiçoada pela prática constante com os parceiros imaginários ou inexistentes.
É um pequeno passo ter esta capacidade de se relacionar com agentes não-físicos para conceituar os espíritos, os antepassados mortos e os deuses, que não são nem visíveis nem tangíveis, mas são socialmente envolvidos. Isto pode explicar porque, na maioria das culturas, pelo menos alguns dos agentes sobre-humanos em que as pessoas acreditam apresentam preocupações morais. Esses agentes são freqüentemente descritos como tendo acesso completo somente às ações moralmente relevantes. Experiências mostram que é muito mais natural pensar que “os deuses sabem que eu roubei esse dinheiro” do que “os deuses sabem que eu comi mingau no café da manhã”.
Além disso, a neurofisiologia do comportamento compulsivo em humanos e outros animais está começando a lançar luz sobre os rituais religiosos. Estes comportamentos incluem ações estereotipadas e bastante repetitivas que os participantes sentem que devem fazer, mesmo que a maioria dessas ações não apresente resultados observáveis claros, como golpear o peito três vezes repetindo uma fórmula pronta. O comportamento ritualizado também é observado em pacientes com transtorno obsessivo-compulsivo e nas rotinas das crianças. Nestes contextos, os rituais são geralmente associados com pensamentos sobre a poluição e purificação, perigo e proteção, o uso necessário de determinadas cores ou números ou a necessidade de se construir um ambiente seguro e ordenado.
Sabemos agora que o cérebro humano tem um conjunto de redes de segurança e precaução, dedicadas à prevenção de riscos potenciais, tais como a predação ou contaminação. Estas redes disparam comportamentos específicos, tais como limpeza e controle do ambiente de cada um. Quando os sistemas se esgotam, eles produzem a patologia obsessivo-compulsiva. Afirmações religiosas sobre a pureza, a poluição, o perigo oculto dos demônios à espreita, também podem ativar essas redes e tornar intuitivamente atraentes as precauções rituais (limpeza, controle e delimitação de um espaço sagrado).
Finalmente, os estudos em psicologia social e evolucionária demonstram uma capacidade especificamente humana de coalizão, que tem um impacto sobre a religião. Os seres humanos são os únicos entre os animais em manter grandes coalizões estáveis de indivíduos não aparentados, unidos por forte confiança mútua. Os seres humanos evoluíram as ferramentas cognitivas para alcançar tal objetivo. Eles sabem como avaliar a confiabilidade dos outros. Eles podem recordar os episódios de interação e inferir como é o caráter das pessoas. Eles podem emitir e detectar sinais de compromisso difíceis de serem falsificados.
Essa psicologia da coalizão está envolvida na dinâmica do compromisso religioso público. Quando as pessoas proclamam a sua adesão a uma fé particular, elas aderem a afirmações das quais não se tem provas, e que poderiam ser consideradas erradas ou ridículas por outros grupos religiosos. Isso sinaliza uma vontade de abraçar às normas particulares do grupo por nenhuma outra razão, a não ser precisamente pelas próprias normas do grupo.
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Leia também a parte 3 (publicada em 27/02)
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